Como dizia Eugénio de Andrade, os jacarandás anunciam o verão e ladeiam as portões do paraíso. São árvores intensas, graúdas, cativantes, de lilás irreal, veludo. Carlos Moedas quer abater umas dezenas delas para construir um subterrâneo de estacionamento na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Mas, entre os quase 80 mil sobreiros e 270 mil azinheiras abatidos no nosso país nos últimos 20 anos, constata-se que há um arboricídio em massa e em marcha em Portugal. Em regra, perpetrado exatamente pelas mesmas pessoas que se dizem muito ambientalistas e ativistas contra o aquecimento global.
As árvores refrescam, filtram e purificam. Os jacarandás rasgam os céus de roxo, estendem violetas passadeiras aos peões, parecem sonhar. São vitais para a nossa saúde mas também são também símbolos vivos, postais da cidade, património vital de décadas, qualidade de vida. Não se entende porque é que um aparcamento obriga ao abate destas mimosas adultas, de belo porte e em condições fitossanitárias perfeitas. Como é possível que a CML viole o seu próprio Regulamento Municipal do Arvoredo? Numa área com as dimensões do loteamento em causa e num empreendimento que gerará milhões e milhões de euros, não se encontra forma de poupar árvores belas e ancestrais?
Num greewashing digno de um golf-hotel com sete piscinas e hectares de abacateiros, a autarquia responde que a avenida ainda “vai ficar mais verde”, que transplantará muitos dos já existentes, que terá ainda mais árvores, blá blá. A ladainha do costume, bolsada também sobre as espécies portuguesas dizimadas protegidas por Decreto-Lei. Ainda agora, Montenegro (que até tem um secretário de Estado envolvido no caso Portucale, que abateu milhares de sobreiros para um empreendimento turístico em 2005) autorizou o abate de mais de mil sobreiros para construir um parque fotovoltaico em Condeixa-a-Nova. Claro que diz que compensará plantando mais de 7 mil árvores no concelho de Marvão. Para uma ETAR em Braga foram mais 100, em Gondomar mais 30, 104 na Trofa, 50 no Ave 30. Na Vidigueira, a EDP manda abaixo mais de 1.500 exemplares, que incluem 367 azinheiras e 22 sobreiros. 1.079 sobreiros abatidos em Gavião (Portalegre) para a instalação de uma central fotovoltaica. Etc. Eu própria estive envolvida na luta contra a decisão do então ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, de abater de 1.821 sobreiros para edificar um parque eólico em Sines. Para defender o ambiente comete-se um crime ambiental e histórico? Que sentido tem isto?
Árvore de interesse público, relevância ecológica e económica, de lento crescimento, o sobreiro — tal como a azinheira ou o carvalho — deve ser protegido. E não é possível compensar ou reparar os danos. Um parque eólico, de estacionamento ou fotovoltaico constrói-se e desconstrói-se. Um montado de sobro, santuário de biodiversidade, habitat (de centenas de outras espécies) em risco, precisa de décadas para nidificar. A flor-fecunda lilás numa avenida na capital não se derruba para se substituir por outra, como se a natureza e a identidade de uma cidade fossem instantâneos automáticos, prontos a servir, fast-nature. Mas claro que a elite política de plástico barato, vendilhona e imediata não entende isso. É metê-la na reciclagem. Ou então no subterrâneo.
Ativista Política