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A ficção supera a realidade

Uma pessoa não pode ter um universo como este e o Godzilla. A realidade, embora mais limitada, não tem pruridos em fazer existir o ridículo ou o grotesco, sem precisar de tornar a trama plausível.
A ficção supera a realidade
DALL-E

Quando me deparo com o estereótipo de que a realidade supera a ficção, tenho tendência a discordar. A realidade jamais verá algumas fantasias criadas pelo ser humano pelo simples motivo de não acontecerem contingentemente ou serem impossíveis fisicamente. Uma pessoa não pode ter um universo como este e o Godzilla. A ficção, porém, pode criar o impossível, o que não existe, o que não existiu, o que poderá vir a existir, bem como o que jamais existirá.

O que a frase "a realidade supera a ficção" diz é que a realidade é menos exigente do que a ficção no que respeita à verosimilhança. A realidade, por sua natureza, não tem de ser verosímil, mas a ficção, coitada, sim. Ou melhor, tende a isso para não ser rejeitada pela descrença.

Não pretendo com isto afirmar que a realidade seja previsível, mansa ou desinteressante. Nada disso. A realidade tem momentos de uma estranheza prodigiosa, alarmante, por vezes feia, por vezes bela. Quando dizemos que supera a ficção, queremos dizer que supera os nossos padrões de previsibilidade, criando surpresa. A realidade pode dar-se ao luxo de nos parecer absurda, incoerente, incompleta, ridícula. Pode fazer eleger seres inverosímeis, que não parecem criaturas possíveis, que não reflectem padrões de inteligibilidade ou humanidade. Porque a realidade não tem editor. Não tem revisão. Não tem de obedecer a regras narrativas. Simplesmente acontece. E, porque acontece, está isenta da exigência de se explicar: os eventos não trazem imbuídos uma justificação (ainda que isso seja um objectivo das ciências e das humanidades).

É verdade que a ficção pode não explicar os acontecimentos surpreendentes da intriga, porque pode tudo, mas, exercendo essa liberdade, fragiliza-se: não se dá uma suspensão da descrença, como acontece amiúde quando se lê. Para que a verosimilhança estabeleça um vínculo poético, são necessárias explicações — explicações que a realidade não tem de dar: se uma personagem mudar de opinião sem que isso seja previamente justificado por um trauma de infância, uma epifania existencial ou um acontecimento charneira no segundo acto, o leitor desiste do livro (da realidade é mais difícil desistir, ou pelo menos mais difícil do que, por exemplo, interromper a leitura, do que abandonar um livro). Algo insólito como uma enorme coincidência, na ficção, só é tolerável se parecer destino, ou se for desmontada mais à frente como artifício. A realidade não tem vergonha da coincidência. Esse descaramento é tão invejável, nuns casos, como deplorável noutros.

Ou seja, apesar de a ficção superar a realidade, porque pode tudo, impõe a si mesma alguns constrangimentos. A realidade, embora mais limitada, não tem quaisquer pruridos em fazer existir o ridículo ou o grotesco, sem precisar de tornar a trama plausível. E assim, aqui estamos, num mundo possível, é certo, mas inverosímil.

Escreve quinzenalmente no SAPO, à quarta-feira//Afonso Cruz escreve com o antigo acordo ortográfico

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