Entre francesinhas, bifanas e sandes de presunto, o “Tasqueando Por Aí” sentou-se às mesas do Porto para provar que a tradição ainda vive. O resultado é um guia, que vai da Cidade Invicta até à Maia e Matosinhos, e termina com cinco tascas e um bar que é campeão nacional a servir minis.

Adega Stadium - Zé Papagaio (Matosinhos)

O tasco onde vive um papagaio de 55 anos

A Adega Stadium quase extrapola a definição de tasca. Nesta casa vive um papagaio há 55 anos e, acredito, alguns clientes também. Dizem que o Jacó, como é chamado o animal-estrela do estabelecimento - que diz "Leixões", "ó patrão" e algumas asneiras que não posso escrever aqui - veio de África num barco da União Soviética e custou quatro contos ao sr. Zé, o dono da adega. A junção dos dois gerou a alcunha do tasco mais tasco que já vi.

Localizado em Matosinhos, perto do porto de Leixões, o Zé Papagaio é como um lar para as almas da região. "Hoje, muitos que frequentam a casa são filhos e netos dos que vinham cá no passado", diz José, o filho, também ele um cumpridor do legado do seu pai, com quem divide o balcão. Zé, que é só dois anos mais velho do que o papagaio, conta que os clientes ajudam a cuidar do Jacó. "Um senhor que tinha Alzheimer vinha de propósito limpar a gaiola do papagaio. Às vezes, precisava de ajuda para voltar para casa, mas conseguia chegar cá."

É como uma casa, na medida em que todos se conhecem, mas é aberta aos forasteiros. Sentado numa mesa afastada da porta, fui cumprimentado por um cliente que faz questão de falar com toda a gente antes de se sentar, cortesia quase em extinção. Ao redor, há quem jogue cartas, leia o jornal, assista televisão ou angarie dinheiro para a "sociedade do euromilhões", uma prática de um grupo que joga, religiosamente, todas as semanas. Também há quem venha para almoçar ou picar nesta tasca famosa pelas lulas, amêijoas e bifanas.

Mas nem tudo é alegria. Uma grande tasca tem sempre um certo grau de melancolia. Estampado na parede, o título de uma reportagem do jornal O Jogo - "A luta para sobreviver" - fala sobre bola, mas serve de analogia para quase todos os tascos do país. "Isto não tem futuro", confessa Zé, o filho, que tem outro trabalho e não é funcionário da adega. Vem para ajudar o pai, evitando que se tenha de contratar alguém, mas garante não querer ser o dono no futuro.

O cansaço pesa, os fins de semana sempre a trabalhar castigam, a falta de tempo para a família magoa. Mas, em simultâneo, o Zé não nos deixa ir embora até encontrar a foto do dia em que o Fábio Porchat foi gravar na sua tasca. Diz, com orgulho, que o Quim Barreiros também já lá almoçou, e que considera cada cliente um amigo. Custa-lhe o trabalho, mas talvez custar-lhe-á tanto ou mais deixá-lo. Se fechar, deixa um legado que os matosinhenses vão sempre lembrar.

Morada: Rua de São Pedro 51, Matosinhos
Número: 229 380 481
Preço médio: 5-10€

O Golfinho (Praça Carlos Alberto)

A francesinha nunca podia faltar

"Não existe caminho para a felicidade, mas certamente o atalho é feito pelo Golfinho". A frase, estampada na primeira página do menu, reflete a confiança do sr Alberto. "Se precisares, temos um livro de reclamações... por estrear", diz o homem que comanda este pequeno tasco, de cinco mesas e dez bancos, há 27 anos. A autoconfiança quase sempre acompanha os melhores, é um facto.

No Golfinho, a estrela é, sem dúvida, a francesinha. E vir ao Porto e não comer uma das melhores - se não a melhor - sandes do mundo roça o desrespeito para com a cultura popular. Sou apaixonado pelo prato desde os 15 anos, quando cheguei a Portugal. Já provei muitas e, com certeza, a francesinha do Golfinho entra no rol das favoritas.

Ao contrário de outros restaurantes e franquias famosas, que servem francesinhas de Norte a Sul do país, o Golfinho só existe aqui, na Rua de Sá de Noronha, no centro do Porto. Sobrevive com três funcionários: o Alberto, a mulher e a filha, que "já nem devia de estar aqui, porque tem o diploma da faculdade". Segue à risca tudo o que uma tasca tem de bom - e de mau, como a falta de multibanco.

No fim, o livro de reclamações continuou em branco. Mas um dos 43 cadernos pretos que o Alberto distribui no fim, a pedir opiniões sobre as francesinhas, para depois empilha-los em estantes pela tasca, ganhou nova mensagem de amor. "Que tascas como a sua nunca morram", escrevi.

Morada: Rua de Sá de Noronha 137, Porto
Número: 222 081 636
Preço médio: 10-15€

Alfredo Portista (Baixa)

Um hino ao FC Porto, mas os rivais também são bem-vindos

Recordo-me de me visitar, na adolescência, o museu do Futebol Clube do Porto. Naquele dia, tive a sorte de encontrar e tirar uma foto com o personagem mais místico da história do clube, Jorge Nuno Pinto da Costa. 10 anos depois, voltei a estar numa espécie de museu dos dragões, feliz por causa de uma fotografia do eterno presidente. Na Casa Alfredo, conhecida como Alfredo Portista, uma imagem fictícia de uma equipa em que todos os onze jogadores são Pinto da Costa é uma das atrações.

Neste local de culto, as paredes são uma viagem às glórias do passado. Não há campeão pelo FCP que não esteja eternizado no Alfredo Portista. Tudo começou em 1960, quando Alfredo e Maria da Conceição, já falecidos, fundaram a casa como é hoje - a tasca já existe há mais de 100 anos, mas foi o homem que dá nome ao restaurante a pintá-lo de azul e branco. Paulo Tavares, que já foi jogador e treinador de futebol, deu seguimento ao negócio dos pais.

Apesar da localização privilegiada, na baixa da cidade, entre a Sé e a Batalha, os preços parecem indiferentes ao passar do tempo. Pego na fatura para confirmar: a tripa enfarinhada custa 60 cêntimos, a bifana fica a 1,5 euros e a cerveja sai por apenas um euro. Petiscos essenciais para acompanhar um Al Nassr-Al Ittihad, meia-final da Supertaça saudita. Assumo o erro no planeamento.

Desengane-se, no entanto, quem pensa que este pode ser um território hostil para os rivais. Para além de dar jogos que não os do FC Porto, todos os adeptos são bem-vindos - e não é preciso ir à paisana. Nas redes sociais, o Alfredo Portista partilha com orgulho um convívio de amigos que mistura camisolas do FC Porto, do Benfica e do Boavista. “As verdadeiras amizades não têm cor”, lê-se na publicação.

Morada: Rua do Cativo 14, Porto
Número: 222 055 816
Preço médio: 5-10€

Adega Braga (Maia)

Uma tasca XXL onde há um pedido unânime

Chama-se Adega Braga, mas situa-se na Maia. É um clássico da cidade, com as portas abertas desde 1962. É um tasco XXL, com três salas e esplanada, mas o balcão à entrada denuncia a essência. “Nesta casa só se fia a maiores de 90 anos quando acompanhados pelos pais”, lê-se num daqueles azulejos clássicos de tasca. Destaca-se ainda a grelha, que aqui tem lugar no meio de uma das salas. Na cozinha, longe dos nossos olhos, não teria o protagonismo merecido.

Já na mesa, com o FC Porto a dar na televisão, percebem-se os costumes da clientela. Se no mundo do futebol a opinião diverge sobre os esquemas táticos e a não titularidade de Rodrigo Mora, na Adega Braga há um entendimento estranhamente comum: a posta de carne joga sempre, sendo claramente o prato mais pedido da sala. Na minha mesa, nem se olhou para o cardápio. Aceitei e segui a norma.

Enquanto se aguardava pela estrela principal, éramos entretidos com copos de espadal e petiscos variados, como os pimentos padrón - foi-me dito, jocosamente, que assim se chamam, porque uns picam, outros nón. O prato não tardou, uma posta que parecia até brilhar como se de uma entidade divina se tratasse. Acompanhada por um arroz de tomate e feijão que não lhe ficou nada atrás, soltinho e saboroso como manda a boa lei da taberna portuguesa.

Adega Braga resiste à gentrificação e vence com isso. Na Maia, todos conhecem o nome, todos já lá foram pelo menos uma vez. E, nesse jantar, à mesa com vários desses maiatos, percebi a razão para tal.

Morada: Rua do Outeiro 95, Maia
Número: 229 424 268
Preço médio: 15-20€

Casa Guedes (Praça dos Poveiros)

A sandes de pernil mais famosa da cidade

Domingo, 21h. Esfomeado, acabado de chegar ao Porto, com a missão de encontrar uma boa tasca para jantar. Não foi fácil. Dos mais de 20 sítios que tinha apontado, só um estava aberto: a famosíssima Casa Guedes.

Levei um susto quando me deparei com um edifício de três andares, rooftop e uma fila enorme à entrada. No menu, pratos como bacalhau e picanha por preços pouco apetecíveis para a carteira do cidadão comum. Ouvi elogios sobre a comida nos cinco minutos em que lá estive, mas claramente não era o sítio que procurava.

Tive de recorrer ao telemóvel para perceber que estava noutra Casa Guedes, a poucos metros da original. Hoje, são já quatro restaurantes espalhados pelo Porto e um em Gaia, parte do plano de expansão traçado pelos investidores que assumiram o negócio em 2019. Um dos novos estabelecimentos foi erguido onde existia o café mais antigo do Porto, o Café Progresso.

Mas a história começou em 1987, pelas mãos dos irmãos César e Manuel Correia, que compraram o Snack Bar Guedes e fundaram o espaço que agora recebe o nome de Casa Guedes Tradicional, dona da sandes de pernil mais famosa da cidade. E lá estava eu, sentado ao balcão - parte quase elementar de toda boa tasca - à espera da minha, com queijo de ovelha. A fama é justificada e foi necessário controlo mental para não avançar para a segunda.

No passado, os jovens adolescentes e universitários foram responsáveis pelo boom da Casa Guedes, graças à parceria de sucesso que o sr. César fez com os Maus Hábitos em 2006, para dar a conhecer as sandes nas noites de sexta-feira e sábado. Hoje, atende-se em inglês face ao número de turistas e os preços subiram - só a sandes de pernil com queijo custa 6,90 euros. Embora o edifício original preserve a decoração, com azulejos do chão às paredes, já não são os irmãos Correia atrás do balcão. Vende-se a tradição, mas parece ter-se perdido qualquer coisa pelo caminho.

Morada: Praça dos Poveiros 130, Porto
Número: 222 002 874
Preço médio: 10-15€

Bónus: Espaço 77 (Cedofeita)

O bar que é campeão nacional a servir minis

Encerrado o tour pelas tascas, fica uma recomendação para juntar os amigos numa tarde de finos (e não imperiais) que se pode prolongar até às 2h00 da manhã.

A decoração do Espaço 77, que proclama há mais de 10 anos o título de "nº1 em Portugal a servir minis", é uma espécie de parque de diversões para o amante da cerveja. Encontrar a casa de banho pode ser um desafio, já que está camuflada numa parede pintada de grades da SuperBock.

Há dois espaços, interior e exterior, cada um munido pelo seu próprio bar. Há também uma espécie de museu, composto de garrafas comemorativas com o número de minis vendidas por ano. Em 2019, ultrapassou o milhão. O preço explica muita coisa - durante anos custou 50 cêntimos e desde a pandemia está fixado nos 75. Se calhar nunca vai ultrapassar o número que dá nome ao espaço.

O "77" ganha fama como um café de estudantes universitários, mas ganhou novos públicos. Aqui a portugalidade mistura-se de braços abertos com outras culturas. Eugénia, a dona que segue o legado dos pais no bar, admite que grande parte dos clientes (e da própria equipa) são do Brasil - por isso o franguinho frito e o torresmo numa ementa que também abrange bons petiscos. Não é uma tasca, mas é um clássico da cidade do Porto.

Morada: Tv. de Cedofeita 22, Porto
Número: 223 218 893
Preço médio: 5-10€

O "Tasqueando Por Aí" nasce com o objetivo de conhecer Portugal através da cultura que vive em cada mesa. Não é apenas sobre avaliar um bitoque ou uma patanisca. O ambiente conta, porque uma tasca é feita de memórias, tradições e, sobretudo, de pessoas, as que servem e as que comem. Até à próxima viagem.