No Sábado passado, o nosso Benfica de Gelo e Mármore de 2024/25 soltou um fôlego como quem ainda se lembra de respirar. Que o diga Vaclík, o guarda-redes do Boavista. Se o ano fosse o de 1995, já estava contratado. Como? Pela lógica implacável da época: jogou bem contra nós, toca a assinar. Se tivesse uma vaga ascendência africana e jogasse do meio-campo para a frente, melhor ainda. Novo Eusébio.

Valha-me Deus, a quantidade de Eusébios que passaram pela Luz. Eusébios de porta-chaves, de caixa de cereais. Eusébios por catálogo. Akwá? Novo Eusébio. Mawete Júnior? Novo Eusébio. Edgar? Pepa? Toy? Novo Eusébio, novo Eusébio. Até Clóvis, céus! Quem, em plena posse das suas faculdades mentais, poderia chamar Eusébio a um Clóvis?

Mas a festa do futebol, como já é costume, não aconteceu durante os 90 minutos. O melhor ficou guardado para o intervalo. Homenagearam Preud’Homme e o momento pecou por escasso. Preud’Homme mereceria 90 minutos de aplausos. Uma temporada inteira de gente a chorar e a bater palmas. Mas, claro, guardou-se o que realmente interessa para os apêndices da partida e o mesmo se passou nos jornais: na ficha do jogo, a menção ao guardião belga não passou dos três vinténs, de uma nota de rodapé. Nada mais injusto. Michel Preud’Homme foi, de um só golpe, a espinha dobrada de cinco anos inteiros do Benfica, segurando a casa enquanto tudo à volta parecia desabar.

Se as contratações do Benfica dos anos 90 obedeciam a essas regras absurdas, como se explica então Preud’Homme? Pálido como a Flandres, guardião de uma posição onde até um reformado podia durar uns anos e sem histórico de assombrar o Benfica, como raio foi parar à Luz? Talvez em 1994 ainda houvesse um ou outro olheiro que percebia de bola. Pelo menos, através do buraquinho, alguém espreitou o Mundial, lá nos Estados Unidos. E descobriu que em Liége jogava o melhor guarda-redes do mundo.

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Viviam-se tempos de cerco. O Benfica mal respirava. Não apenas por culpa dos outros (Porto; e Sporting, pronto, está bem), mas sobretudo por si próprio. Era vítima do seu próprio peso. O Benfica dos anos 90 era um Dorian Gray que, apesar da decadência da carne, continuava a ver-se ao espelho como um jovem imortal. Mas, na realidade, já só lhe restava um último dente capaz de trincar fosse o que fosse: Preud’Homme.

E no meio desse caos, aconteceu algo inesperado. O Benfica, clube que sempre colocou os avançados e os médios no topo da sua pirâmide alimentar, inverteu o triângulo. Pela primeira vez, a peça central da equipa era um guarda-redes.

Naquele matagal de bicharada avulsa, naquele vaivém de pernas, ele foi a última linha. Literalmente: do futebol como o concebíamos, mas também da dignidade do Benfica. Um esteio no baldio de cepos que iam e vinham ao sabor dos incontáveis treinadores que iam assumindo o barco. Mas também o homem que salvava jogos e mantinha a honra possível. Preud’Homme defendia as redes, como se cada um daqueles nós de malha branca fosse um fascículo da História do Sport Lisboa e Benfica. Era uma questão existencial.

É que Preud’Homme, ao defender o que defendeu, e como defendeu, salvou o próprio Benfica do ocaso. Quando Vieira nos quis fazer engolir a patranha das pedras da calçada, no seu providencialismo de tasca, já nós sabíamos bem que, no Vietname lançado por Damásio, o verdadeiro James Braddock foi Preud’Homme. Nessa resistência, manteve o Benfica vivo.

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O futebol já vivia cabisbaixo sob as funestas consequências da Lei Bosman. E sei que muitos justos leitores pensarão: “Então e os direitos dos jogadores?”. Mas o que esses leitores esquecem é que o futebol não tem a ver com direitos. Tem a ver com deveres. Deveres de lealdade. Tem a ver com pertença: nem quarenta gerações de Sousas e Pachecos apagarão a nódoa da traição que Paulo e António Manuel contraíram no Shakespeariano Verão de 93. Era o futebol sem rosto, da dança de cadeiras dos jogadores, do mercado como único critério. Era o futebol em dissolução.

Nesse contexto, é quase um milagre que Preud’Homme tenha ficado cinco temporadas. Cinco anos, como se fossem quinhentos.

Num Benfica de pernas para o ar, Preud’Homme foi o astro inverso. Quando o Benfica ganhava, era por goleada inversa: as grandes vitórias não se mediam pelo número de golos marcados, mas pelo número de defesas impossíveis do seu extraordinário guardião. Como a miudagem italiana que adormece a pensar em cortes de carrinho, as crianças portuguesas deixaram de querer ser avançados. O novo ídolo já não era o ponta-de-lança. Queriam ser a base da lança. E assim, de mangas compridas e jersey cor-de-burro-quando-foge, brilhavam mais que o resto das papoilas saltitantes.

Essas crianças são hoje os velhos da Central. E Sábado, quase 30 anos depois, lá estava ele. Como se não tivesse passado um só dia.

Não se admire, pois, excelso leitor, se lhe disser que, para esses velhos como eu, o verdadeiro futebol aconteceu durante o intervalo. Alguma coisa nos apertou o peito.

Nostalgia? Nostalgia é saudade para meninos. Isto era outra coisa.

Saudade do homem que defendeu o Benfica quando mais ninguém o faria.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.