Em Portugal “todas as mulheres cozinheiras que estão na praça pública, são donas dos seus projetos”, sublinha Marlene Vieira numa reação à conquista da primeira estrela Michelin da carreira. “Ninguém investiu nelas, elas mesmas investiram de si, porque não há investimento nas organizações para as mulheres”, considera.

Aos 45 anos, a chef do restaurante Marlene, em Lisboa, nunca se rendeu ao “síndrome da vitimização que não nos deixa avançar”, garante, assegurando que, independentemente de serem homens ou mulheres, “alimento-me e gosto de trabalhar com pessoas com talento”. Normalmente “não penso se sou mulher ou homem, foco-me nos meus objetivos e sonhos”. Naturalmente, recorda, “quando olho para trás sei que passei por algumas coisas menos boas por ser mulher, mas na altura era só mais um obstáculo para contornar”.

Marlene Vieira
Marlene Vieira Expresso

Sempre soube que “teria que lutar por um lugar, se me quisesse destacar em alguma coisa”, sublinha sobre a herança familiar. “Toda a vida me ensinaram que se tu não fizeres por ti, ninguém vai fazer”. Para o duro trabalho na cozinha, levou os ensinamentos da mãe, desde a escola primária: “filha, vais apanhar, vão-te chamar nomes e tu vais ter de te saber defender. E foi isso que fiz. Levei aquilo mesmo à letra, e é para a vida toda”.

Um sonho antigo, finalmente concretizado, a conquista do galardão, no Porto, teve um sabor especial para a chef, natural da Maia: “parece que estava escrito”, comenta, “porque a força que tenho vem muito desta forma de estar no Norte que nos torna resilientes”, destaca.

Chef Marlene Vieira
Chef Marlene Vieira Manuel Manso

Mudar mentalidades, um restaurante de cada vez
Na memória estão dois momentos em particular em que essa resiliência foi posta à prova ao longo do percurso como cozinheira e empresária: quando teve de deixar a filha, atualmente com 9 anos, ao cuidado de outras pessoas, para trabalhar, e durante a pandemia de Covid 19. Por sentir na pele a difícil conciliação entre a maternidade e a alta cozinha, ao subir ao palco dedicou o prémio também à subchef, Marcela, mãe há 11 meses, a quem sossegou aquando da gravidez, garantindo que iriam encontrar uma solução para conciliar ambas as vertentes.

“As mães têm dificuldade em deixar os seus bebés, principalmente neste segmento onde os restaurantes abrem essencialmente ao jantar. Acredito que isso pode mudar no futuro”, salienta, garantindo que no restaurante Marlene, essa é uma “meta que queremos atingir” não só pelas mães, mas também pelos pais: “tenho um subchef que foi pai há três anos e presenciei a dor que ele sentia ao não estar ao lado da filha tão pequena”. A quem educa as futuras gerações, deixa o conselho: “ensinem os vossos filhos e filhas a defenderem-se e a não abdicarem dos sonhos por nada”.

Chef Rita Magro
Chef Rita Magro Luis Ferraz

Um homem entre mulheres
Rita Magro, que em 2024 subiu ao palco da Gala Michelin para receber o Prémio Jovem Chef, foi outra mulher em destaque numa cerimónia marcada pelas vitórias no feminino. "Foi um longo caminho. Foi duro, sofrido, mas finalmente chegamos", declarou ao receber a primeira estrela para o restaurante Blind, no Porto, com Vítor Matos. O galardão é de "uma equipa que escolhe diariamente dar o seu melhor", sublinhou a chef de 28 anos.

A juventude, mas também o facto de ser mulher, pesam, assume ao Boa Cama Boa Mesa: “É mais desafiante. Os homens não gostam muito de ter uma mulher a mandar neles”. Além disso, acham que ser chef é para homens, “o que é irónico porque tradicionalmente sempre houve grandes mulheres na cozinha”.

Por ter definido desde muito cedo o que queria fazer e em que tipo de cozinha desejava trabalhar, a idade não tem influenciado o seu percurso. O labor conjunto com Vítor Matos, com quem trabalha “há cinco ou seis anos”, tem evoluído. Ao longo do tempo, Rita passou a ter um papel mais preponderante na vertente criativa, quando no início se limitava a executar, mas a missão permanece a mesma: “manter o Blind a funcionar”.

Rita Magro no palco com Vítor Matos na Gala Michelin, no Porto
Rita Magro no palco com Vítor Matos na Gala Michelin, no Porto Expresso

Amante de uma cozinha meticulosa, sonha com um projeto em nome próprio, pequeno, de cozinha aberta e com balcão: “imagino-me numa cozinha muito perfecionista, mas simultaneamente informal”, projeta. Para Rita, este é apenas o princípio: “será o início de uma jornada em que, juntos, cada desafio será uma oportunidade de superar as expetativas", destaca.

Ao lado da jovem cozinheira, aos comandos do Blind e no palco da Gala, Vítor Matos foi o chef da noite. Conquistou mais duas estrelas Michelin, num total de cinco, em quatro projetos: 1* no Blind, no Porto; 1* no restaurante 2Monkeys, em Lisboa; 2* no restaurante Antiqvvm, no Porto; 1* no restaurante Oculto, em Vila do Conde. Natural de Vila Real, Vítor Matos desenha ainda as ementas dos restaurantes Hool, em Guimarães; Salão Nobre, em Vidago, e do Torel Quinta da Vacaria, no Douro.

Alice Marto
Alice Marto Expresso

Três décadas à espera
Há quase 30 anos que não havia uma mulher destacada no “guia vermelho” com uma estrela Michelin. No passado, esclarece Fortunato da Câmara, crítico gastronómico do Expresso, registam-se diversas mulheres distinguidas pelo trabalho na cozinha. A diferença é que nas décadas de 80 e 90, não se falava de chefs, mas sim de cozinheiras.

Foi o caso de “várias mulheres de nome Maria”, como a que laborava no restaurante Conventual, em Lisboa, comandado por Maria Leopoldina Marques, conhecida por dona Dina, que ganhou estrela entre 1987 e 1998; também de Maria, galardoada pelo trabalho no restaurante Ramalhão, em Montemor-o-Velho, de José Ramalhão, entre 1991 e 2001, e, as mais conhecidas, e já então consideradas chefs, como Júlia Vinagre, que conquistou a estrela Michelin no restaurante A Bolota, localizado na Terrugem, em Elvas nos anos de 1992 e 1993 e, a mais recente, Alice Marto, do restaurante Tia Alice, em Fátima, premiado entre 1993 e 1996.

Recorde os vencedores da Gala Michelin Portugal 2025, a segunda exclusivamente dedicada ao nosso país, que decorreu na noite de terça-feira, 25 de fevereiro, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, onde as ausências mais pronunciadas foram a atribuição de três estrelas Michelin – ainda não foi desta que um restaurante português atingiu o patamar máximo do guia vermelho – e a da inexistência de novos espaços no grupo, ainda bastante exclusivo, das duas estrelas. Um restaurante, o 100 Maneiras, de Ljubomir Stanisic, em Lisboa, perdeu a distinção.

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