
Fiskekaker é a palavra norueguesa que designa um pão feito à base de peixe, matéria-prima abundante nas gélidas águas que banham a Escandinávia. Caso seja possível avistar este alimento no meio de um relvado, algo não está certo.
Naquela tarde, em julho de 2024, a iguaria foi o mais inusitado dos objetos a voar das bancadas do Estádio Lerkendal, casa do Rosenborg, para o terreno de jogo. Os adeptos, em conflito constante com grupos vestidos com camisolas de uma cor diferente, uniram-se em prol de uma causa comum. No topo destinado aos apoiantes do Lillestrøm, duas tarjas dissecavam o motivo pelo qual o campo se tornou alvo de bolas de ténis e potes de fumo: “Nunca vamos desistir. O VAR vai acabar.”
As demonstrações de repulsa para com a tecnologia levaram as equipas a deixarem o campo. Foi impossível jogar sob protestos tão expressivos. Rosenborg e Lillestrøm ainda tentaram, em duas ocasiões, retomar o encontro, mas fracassaram em ambas. A congeminação contra o VAR estava a dar mais um passo na sua marcha.
A nova temporada prometia notícias sobre o assunto. A opinião avessa quanto à ferramenta (incontestável noutras geografias) não é apenas assumida por dois clubes. Para apurar quantos verdadeiramente se opunham e quantos continuavam a favor do VAR, realizou-se uma votação que incluiu os 32 clubes do Norsk Toppfotball, organismo que representa os dois principais escalões do futebol norueguês: 19 manifestaram-se a favor do fim, os restantes 13 defenderam a posição contrária.
No último fim de semana, arrancou o campeonato norueguês, desfasado de outros que decorrem em países onde o inverno é mais meigo. A claque do Vålerenga deixou os assentos do seu setor no estádio a fazerem companhia uns aos outros. Só aos 15 minutos do jogo da ronda inaugural tomaram os seus postos, saindo às centenas de um estreito túnel de acesso à bancada. Foi apenas mais uma onda na maré agitada de oposição.
A Aliança dos Adeptos Noruegueses convocou protestos para as duas primeiras jornadas do campeonato. A organização enfatizou em comunicado que os “clubes noruegueses são propriedade dos seus sócios”, mas que este modelo “está sob ataque”. “Defenderemos sempre a democracia dos sócios e mostraremos isso claramente nas bancadas.”
Uma vez que a eleição realizada em janeiro de 2025 pela Norsk Toppfotball ditou que se começassem a preparar as exéquias do VAR, por que motivo sobrevive? Para descontentamento de tantos, os resultados não são vinculativos. Embora muitos esperassem que a Federação de Futebol da Noruega acatasse o resultado do sufrágio, na verdade, o que se sucedeu foi uma nova votação para a qual foram chamados 450 clubes, a maioria amadores e que não têm o VAR implementado nas respetivas competições. Neste caso, uma maioria de 321 equipas vetou a abolição.
“Ouvi a acusação de que ‘nós simplesmente não queríamos perder a discussão’. Não chega nem perto da verdade. É sobre democracia e, no final, ficou claro que a maioria silenciosa queria manter o VAR”, defendeu Lise Klaveness, a mulher que preside à Federação de Futebol da Noruega, ao “The Athletic”.
“A grande maioria dos jogadores e dos adeptos acredita que o VAR não funciona.” A Aliança dos Adeptos Noruegueses diz não existirem “soluções realistas para os problemas” e aponta como alternativa que os “enormes” custos sejam utilizados para “profissionalizar árbitros na Noruega”. Além disso, o VAR é visto como promotor de clivagens entre o futebol masculino e o feminino, mas também entre o futebol profissional e amador.
O VAR começou a ser utilizado na Noruega em 2023 depois de ter sido aprovado dois anos antes. Não é apenas do país nórdico que se levantam vozes avessas à utilização deste mecanismo ao qual a Suécia nunca aderiu. Em Inglaterra, o Wolverhampton levou o fim do VAR a votação na reunião de final de época da Premier League. Foram um lobo solitário desacompanhado no propósito de o mandar abaixo.