Lisboa, Évora, Coimbra, Braga e Porto. Cinco cidades em cinco dias, passados a almoçar, jantar e, às vezes, até lanchar em mesas com toalha de papel. O “Tasqueando Por Aí” foi subindo no país, de casa em casa, à procura de pequenos tesouros da restauração portuguesa.

O resultado são cinco sugestões, uma por cidade, de quatro restaurantes e um bar.

Cantinho do Alfredo (Lisboa)

A casa do Albino (não lhe chame Alfredo), pequena e sempre cheia

Não sabia o que pedir quando cheguei ao Cantinho. A ementa colada à porta - quase ilegível - pouco ajudava. Nas mesas não havia menu e não quis chatear o Albino (e não Alfredo), que parecia ocupado a servir e a comentar coisas da política.

O restaurante tem porta estreita, sala pequena e comporta, com jeitinho, umas 25 pessoas, em mesas quase coladas umas às outras. A proximidade encorajou-me a pedir sugestões a um cliente que, felizmente, era da casa.

"Pede as pataniscas, é dos melhores pratos daqui", sugeriu. Eram excelentes, de facto, mas fico com a ideia que podia fechar os olhos e escolher qualquer coisa, que saía feliz da mesma forma.

O mais impressionante é que uma nota de dez euros chega e sobra para tudo - prato, bebida, sobremesa e café. Eis uma tasca rara, com uma relação qualidade/preço difícil de encontrar nos dias de hoje - e no centro de Lisboa.

  • Morada: R. Gen. Taborda 44, Lisboa
  • Número: 213 882 662
  • Preço médio: 5-10€

O Templo (Évora)

O restaurante que podia ter virado franquia nos EUA

O Templo não tem paredes. Tem papéis de cima a baixo. Cada um é uma declaração de amor, uma promessa de regressar. Tem cachecóis de clubes, toalha de papel, fado a tocar. É uma tasca como se quer.

Vasco, o dono, serve e explica tudo que chega à mesa. Diz que é tímido, mas em meia hora estava a contar que um americano comeu durante três dias no Templo e convidou-o para abrir um restaurante em Boston. Não duvido.

Eu não percebo nada disso, mas as bochechas de porco, uma tradição que o Vasco herdou da avó, são realmente uma explosão de sabores. Depois houve sobremesa, café, ginja oferecida e muita conversa. O preço é acima da média deste artigo, mas as doses são generosas e, se não estiverem esfomeados como eu estava quando lá fui, podem dar para dois.

O Templo não é um lugar para um dia voltar, é um lugar para voltar sempre que puder.

  • Morada: R. do Escrivão da Câmara 2B, Évora
  • Número: 914 226 808
  • Preço médio: 20-25€

Cantinho dos Reis (Coimbra)

Um hino a Coimbra e aos clientes fiéis

Eu achava que conhecia o Cantinho dos Reis, onde jantei muitas vezes durante a faculdade. Achava até lá ir com quem realmente conhece.

Sentei-me e em poucos segundos já tinha pão e sopa na mesa. Portugal. Pedimos todos a mesma coisa - arroz de entrecosto em vinha de alhos - e comemos todos do mesmo sítio: uma enorme travessa de barro em cima de outra de inox. Portugal.

A decoração transborda o orgulho de quem é ou escolheu ser de Coimbra. Camisolas da Académica, diplomas de estudantes, quadros da cidade por todo o lado. Não fosse Coimbra feita das pessoas, o Cantinho esbanja incontáveis fotografias dos seus clientes. Desde António Costa e Rui Rio ao Francisco, o meu amigo que fez de guia neste almoço.

O Francisco lamenta que tem ido pouco ao Cantinho… só duas vezes por semana. Ele tem razão. É muito pouco.

  • Morada: Terreiro Erva, Coimbra
  • Número: 239 824 116
  • Preço médio: 10-15€

Sra-À-Branca (Braga)

Dos ovos cozidos ao pudim, tudo no balcão

Depois do restaurante que não tem paredes, eis um que não tem mesas. E desta vez não estou a usar qualquer figura de estilo. O Sra-À-Branca é formado por um longo balcão em formato de V, com mais de 20 assentos de cada lado. Percorremos todos eles e sentamos perto da cozinha, da máquina de finos e dum prato de... ovos cozidos, servidos como petisco.

Iguaria rara em Portugal (de 10 amigos, apenas um já viu ovos cozidos numa tasca), mas comum nos ‘botecos’ do Brasil. Não deve ter sido coincidência. Jaime, o dono do Sra-À-Branca, viveu mais de 10 anos em São Paulo, onde também trabalhou na restauração.

Hoje, mantém a simpatia que fideliza quem frequenta o restaurante. É o caso de um senhor que entra, senta-se e, sem dizer uma palavra, é servido com uma taça de vinho. Já passavam das 15:00, mas neste recinto come-se (bem) fora do horário tradicional. O prego, seja no pão ou no prato, é digno de registo, mas o pudim é dos melhores que já provei.

  • Morada: Av. Central 170, Braga
  • Número: 253 214 394
  • Preço médio: 10-15€

Espaço 77 (Porto)

O bar que é campeão nacional a servir minis

Apesar das francesinhas e das tripas, que merecem a devida atenção numa futura visita, do Porto regresso com uma sugestão para juntar os amigos numa tarde de finos (e não imperiais) que se pode prolongar até às 2:00 da manhã.

A decoração do Espaço 77, que proclama há mais de 10 anos o título de “nº1 em Portugal a servir minis”, é uma espécie de parque de diversões para o amante da cerveja. Encontrar a casa de banho pode ser um desafio, já que está camuflada numa parede pintada de grades da SuperBock.

Há dois espaços, interior e exterior, cada um munido pelo seu próprio bar. Há também uma espécie de museu, composto de garrafas comemorativas com o número de minis vendidas por ano. Em 2019, ultrapassou o milhão. O preço explica muita coisa - durante anos custou 50 cêntimos e desde a pandemia está fixado nos 75. Se calhar nunca vai ultrapassar o número que dá nome ao espaço.

O “77” ganha fama como um café de estudantes universitários, mas ganhou novos públicos. Aqui a portugalidade mistura-se de braços abertos com outras culturas. Eugénia, a dona que segue o legado dos pais no bar, admite que grande parte dos clientes (e da própria equipa) são do Brasil - por isso o franguinho frito e o torresmo numa ementa que também abrange bons petiscos. Não é uma tasca, mas é um clássico da cidade do Porto.

  • Morada: Tv. de Cedofeita 22, Porto
  • Número: 223 218 893
  • Preço médio: 5-10€

O “Tasqueando Por Aí” nasce com o objetivo de conhecer Portugal através da cultura que vive em cada mesa. Não é apenas sobre avaliar um bitoque ou uma patanisca. O ambiente conta, porque uma tasca é feita de memórias, tradições e, sobretudo, de pessoas, as que servem e as que comem. Até à próxima viagem.