A aventura de Ruben Amorim ao serviço do Manchester United começou no dia 24 de novembro, com um empate (1-1) na casa do Ipswich Town. Esta semana, volvidos três meses, bateu este mesmo adversário por 3-2, mas continua longe de qualquer tipo de celebrações já que a equipa ocupa o 14º lugar na tabela da Premier League.

As circunstâncias eram e continuam a ser difíceis, mas também é difícil refutar as análises que rotulam esta sucessão de Ten Hag como desapontante. Enquanto o ex-Sporting espera por uma pré-temporada onde tenha tempo e espaço para impor as suas ideias, em Inglaterra já se fala, ainda que com timidez, de uma saída prematura.

Mas o que mudou, afinal, nos red devils durante estes primeiros três meses sob o comando do treinador português? De que forma é que esta chegada afetou o clube? Qual é a visão dos adeptos? Para responder a estas questões, o zerozero apoiou-se em dados e também numa conversa com quem de mais perto acompanhou esta mudança...

Primeiro impacto deixou a desejar

Como acima referimos, o histórico Manchester United está atualmente a definhar no 14º lugar da Premier League, com 33 pontos. Se não fosse esse triunfo frente ao recém-promovido Ipswich, na quarta-feira, então estaríamos a falar de um preocupante 16º posto!

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O problema, mais do que o posicionamento na tabela em si, é o facto de esta ser uma quebra em relação ao que o seu predecessor tinha feito. Recorde-se que Erik ten Hag deixou a equipa no 13º lugar e a apenas um ponto da metade superior da tabela e a três dos lugares europeus, enquanto agora, 16 jornadas depois, a primeira posição de acesso à UEFA está a 10 pontos de distância.

Os primeiros 23 jogos de Amorim ao leme do gigante inglês e internacional traduziram-se em 10 vitórias, quatro empates e nove derrotas. Uma média de 1,48 pontos por jogo e uma taxa vitoriosa de 43,5 por cento, duas estatísticas que ficam abaixo dos números referentes aos últimos técnicos do clube, cujos registos foram também criticados. Ten Hag, a título de exemplo, deixou o clube com 1,82 pontos por jogo e 54,7 por cento de vitórias... num total de 128 jogos.

Treinadores do Man Utd (pós-Sir Alex Ferguson)
Treinador Jogos Pontos por jogo % de vitórias % de empates % de derrotas
Rúben Amorim 23 1,48 43,5 17,4 39,1
Erik ten Hag 128 1,82 54,7 18 23,3
Ralf Rangnick 29 1,48 37,9 34,5 27,6
Ole Gunnar Solskjaer 168 1,85 54,2 22 23,8
José Mourinho 144 1,97 58,3 22,2 19,4
Louis van Gaal 103 1,82 52,4 24,3 23,3
David Moyes 51 1,76 52,9 17,7 29,3

Os números não favorecem Amorim, que tem a pior percentagem de derrotas e de resto se aproxima mais de Rangnick como os dois piores desta era. Ainda assim, vale a pena referir que a amostra ainda é muito curta para o atual treinador em comparação com os outros nomes da lista.

Vale também a pena referir que a passagem do técnico de 40 anos pelo Sporting, por mais feliz que tenha sido, também começou de forma semelhante. Amorim assumiu o cargo em março com a tarefa de terminar, no mínimo, dentro do pódio dessa edição da Liga Portuguesa, mas acabou no quarto lugar. Só mais tarde, com uma pré-época inteira para impor as suas ideias, é que conseguiu ter sucesso...

Como é visto pelos adeptos dos red devils?

«Ele recebeu uma herança difícil, mas os resultados não mentem e o Manchester United não melhorou. Existia a expectativa de que a equipa começasse a crescer, mas na verdade desceu ainda mais abaixo na tabela», começa por dizer-nos Charlotte Harpur, jornalista do The Athletic que acompanha de perto o clube, tendo até seguido o técnico no período de transição entre Portugal e Inglaterra.

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Essa primeira análise veio acompanhada de uma ressalva, que é o facto de Amorim não ter os jogadores certos para o sistema que tenciona implementar. Isso é evidente e tem sido tema em Inglaterra desde o dia um. Por outro lado, o que melhor correu para o português também não é propriamente surpreendente, já que é uma qualidade que há muito tempo lhe é reconhecida: «As pessoas gostam da comunicação dele, honesta e direta. Tem sido refrescante.»

Essa capacidade comunicativa - acima de tudo a comunicação externa - tem sido a base da carreira construída por Rúben Amorim e isso não mudou em Inglaterra. Talvez por isso mantenha a lealdade de Old Trafford e dos adeptos que frequentam fóruns afetos ao clube, mesmo quando as redes sociais têm tendência para mostrarem uma versão muito mais drástica ou polarizada das opiniões.

Por mais polémico que tenha sido, por exemplo, o momento em que Amorim se referiu à sua equipa como «a pior na história do United», depois da derrota com o Brighton (1-3), esse momento de honestidade crua foi apreciado por um grupo de adeptos que se revelava saturado com a comunicação do anterior treinador, que mostrava tendência para elogiar até as exibições menos felizes.

«Os adeptos que vão ao estádio têm sido leais e pacientes. Até escreveram uma música para ele», conta a especialista, embora, uma vez mais, com direito a ressalva: «Essa paciência não durará para sempre...»

«Donos não têm medo de decisões drásticas»

Ruben Amorim
Manchester United
2024/2025

23 Jogos
10 Vitórias
4 Empates
9 Derrotas

36 Golos
37 Golos sofridos

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Os resultados de Amorim, que no mínimo são descritos como inconsistentes e no máximo como trágicos, levam a conversa a dois rumos. Alguns adeptos acreditam que a situação pode ser corrigida com mais tempo e com uma pré-época inteira com a equipa, enquanto outros não imaginam o português a manter o cargo durante muito mais tempo.

«Houve alguns murmúrios de descontentamento e a INEOS [empresa que detém a fatia maioritária do clube] historicamente não tem medo de tomar decisões drásticas», atira Charlotte Harpur, à conversa com o zerozero.

O Manchester United está em risco de piorar gravemente o 8º lugar da temporada passada, que já era a pior classificação no pós-Ferguson, mas mesmo assim é improvável que uma dessas decisões drásticas seja tomada assim tão cedo.

Isso porque o clube atravessa atualmente uma crise financeira que gerou cortes em 200 postos de trabalho, pelo que é difícil imaginar que o orçamento permita, nesta altura, outra dispendiosa rescisão. Recorde-se que, com os 12,5 milhões de euros pagos a Ten Hag e à sua equipa técnica, o United pagou 87 milhões de euros no despedimento de treinadores em pouco mais de uma década!

Podemos, por este motivo, assumir que Rúben Amorim manterá a confiança até à próxima época. Seria esse um bom ponto de partida para o renovar das possibilidades de sucesso. «Ele precisa de tempo sem pontos em jogo, tempo para construir e tempo para fazer uma pausa. Tem de melhorar as exibições da equipa o que por sua vez trará melhores resultados», diz-nos a jornalista inglesa.

«A questão que se coloca é se ele tem o nível de jogadores necessário para o que quer implementar e, caso não tenha, se o clube tem os meios financeiros necessários para contratar os jogadores em falta», remata. Resta saber isso e outras coisas, como, por exemplo, se o cenário será mais animador daqui a outro trimestre, quando 2024/25 terminar...

Amorim tem futuro em Manchester? @Getty /