O futebol moderno é um embuste digital. Reveste-se de uma armadura de última geração para persistir em hábitos velhos como o pecado.

Introduz-se o VAR como quem introduz um novo deus paranóico e burocrata, que mede milímetros com o zelo de um monge do Excel. Detecta-se a ponta da chuteira em fora-de-jogo. Organizam-se campanhas contra o racismo à força de drones e luzes LED. Mas os adeptos são tratados como gado nos acessos aos estádios. E ninguém se incomoda com guarda-redes a perderem dois minutos por pontapé de baliza.

E — e é aqui que pretendo chegar — proclama-se aos quatro ventos os pergaminhos democráticos do Benfica, para depois darem-se os parabéns públicos ao Presidente como se ele fosse o Líder da Revolução de uma República das Bananas.

Ninguém se escandaliza. Faz parte.

Foi na semana passada que chegou o anúncio: o Benfica deu os parabéns ao seu Presidente. Não ao clube, não a um jogador. Ao Presidente. Ao homem. Ao rosto. Ao chefe. Como se o Benfica fosse um desígnio seu, uma costela retirada no terceiro dia da Criação.

De onde vem isto? Não sei. Minto; sei: vem de um clube que nos últimos vinte anos se organizou em regime. Com um canal de televisão que só reproduz propaganda alinhada, ou um treinador que — conferência de imprensa sim, conferência de imprensa sim — surge a comentar as eleições de Outubro e as “politiquices” como se estivesse a nomear o Cão Tinhoso.

São as profundezas dos porões do século XX, amigo leitor: os desfiles militares, os balcões com flores e as multidões aparelhadas. Numa palavra, o bigode de Luís Filipe Vieira. Um bigode de Estaline, um bigode de Saddam, um bigode de Maduro. Um bigode muito seu.

Mas se o mestre Vieira tinha a estética do tirano, o discípulo Rui Costa tem a tragédia da nostalgia. Não fiz bem as contas, mas, matematicamente, talvez Rui ainda seja o pequeno da fotografia a preto e branco a segurar uma taça. O capitão. O símbolo. Mas o tempo passa; e a História está cheia de rostos afáveis ao serviço de projectos duvidosos.

Neal Simpson - EMPICS

É essa a grande armadilha. Rui Costa é a encarnação da ambiguidade. Um símbolo empalhado em glória. Um ex-miúdo usado como escudo emocional. O adepto — essa criatura meio palerma, meio trágica — confunde tudo. Choro com liderança. Passado com presente. Golo com competência.

E assim, quando o Departamento de Comunicação escreve “Parabéns, Maestro”, há quem leia: “Ecce Homo.”

Sei de professores sisudos, aborrecidíssimos contabilistas, engenheiros de estruturas que anularam décadas de raciocínio porque um dia Rui Costa chorou contra o Benfica — repararam que escrevi contra o Benfica?

E então votaram nele. Em nome das lágrimas. Em nome da sua própria infância.

Mas Rui Costa já não dirige orquestra nenhuma. Os violoncelos reformaram-se. Os médios-alas foram para casa. As pernas que obedeciam à sua batuta ficaram-se pelas cadernetas da Panini. Sobra o ex-jogador, o benfiquista, o herdeiro de Vieira. É esse o currículo. Pronto: ponto.

E se é só disso que se trata, então ponham lá o Nuno Gomes ou o Paneira. Ao menos, esses não comungaram no altar do vieirismo.

Na balança do tempo, Rui Costa é o fiel que oscila entre a pureza do menino e a vaidade do chefe. Um pé no relvado, outro na cadeira do poder. Um olho na fotografia, outro no espelho. Chorou quando marcou contra o Benfica. É bonito. É comovente. Mas — e perdoem-me o excesso — quem mandou rematar?

O dia do arrependimento há-de chegar. Escrevam isto numa pedra. Um Domingo de nevoeiro, a Luz em silêncio. Nesse dia, Rui não será Maestro, nem Presidente, nem Capitão. Será apenas um homem. Um homem diante do espelho, a perguntar: “Quem sou eu? O que faço aqui?”

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.