Quem diria que à entrada de abril, na Primeira Liga, os nomes de Roger Schmidt, Ruben Amorim, Vítor Bruno ou até mesmo Daniel Sousa não fariam parte do vocabulário recorrente do futebol português? Eu não diria, tal como grande parte da comunidade desportiva, que não pensaria numa mudança de treinadores conjunta dos clubes que disputam o título.

É estranho pensar nisso porque, apesar de ser um processo recorrente no contexto do futebol português, não o costuma ser para todos os grandes na mesma temporada. Não é algo habitual.

A verdade é que as mudanças ocorreram, no entanto, quão definitivas são essas mesmas mudanças para a realidade dos clubes que as fizeram, numa altura em que a temporada se aproxima da sua reta final? Analisemos.

Carlos Carvalhal

A cama em que Carlos Carvalhal se deita todos os dias no Braga foi feita por Daniel Sousa, que mal teve tempo para sentir o conforto dos lençóis do Minho. O técnico de 59 anos, que já havia orientado o clube duas vezes anteriormente, voltou a receber uma chamada repentina de António Salvador no início da temporada, depois da separação do clube com Daniel Sousa após 4 jogos apenas. Nesse sentido, Carlos Carvalhal foi uma solução que, à partida, se apresentou como algo a curto prazo. Isto porque, a relação do treinador com o clube não costuma ser muito duradoura e a verdade é que o emprego até esteve em risco na atual temporada. O Braga parece não gostar de assumir um projeto a longo prazo em que confie num treinador verdadeiramente para elevar o nível competitivo durante várias épocas.

Mesmo que os resultados surjam aqui ou ali, a realidade medíocre volta sempre ao de cima quando se muda repentinamente após desentendimentos recorrentes. Ainda que seja matematicamente possível a conquista do título por parte do Braga, a probabilidade reduzida aponta para a disputa pelo terceiro lugar. Essa briga europeia, positiva para o Braga neste momento, poderá servir como alavanca para o Braga assumir uma posição de maior enfoque no rendimento desportivo e na apostas de um projeto a longo prazo que possa colocar o clube numa órbita verdadeiramente superior e ao nível dos habituais três grandes. O potencial existe- só é preciso aproveitá-lo da melhor forma. Nos últimos anos tem sido difícil ver isso acontecer porque passado algum tempo com um treinador torna tudo de volta à estaca inicial e isso nunca é muito positivo. Nesse sentido, é preciso saber se a estrutura olha para Carlos Carvalhal como a figura a assumir essa ambição ou não. A história indica que provavelmente não.

Martin Anselmi

Apesar da contestação que Vítor Bruno vinha a sofrer nos últimos tempos à frente dos dragões, o antigo adjunto de Sérgio Conceição tinha o Porto numa situação mais favorável relativamente àquela que se regista agora com o novo treinador. André Villas-Boas, que pouco de errado tem feito desde que chegou à presidência do clube, acabou por escolher Anselmi como a solução para o futuro do Porto. Ainda assim, o presente não se mostra tão positivo quanto o esperado. É difícil de perceber neste momento se o técnico de 39 anos é realmente ou não a resposta às necessidades dos Dragões.

O início não tem sido fácil e a única esperança neste momento encontra-se no campeonato. Sendo a conquista difícil, a disputa pelo terceiro lugar, que dá acesso à Liga Europa é o cenário mais realista para os azuis e brancos. Ainda assim, caso isso não seja alcançado, terá Villas-Boas a confiança no argentino para continuar à frente do Porto ou foi um tiro ao lado na primeira época como presidente do clube? É uma equação difícil de prever mas a verdade é que as expectativas face a Anselmi tendem a registar uma descida.

Rui Borges

Rui Borges foi a segunda escolha de Frederico Varandas para suceder a Ruben Amorim no comando técnico do Sporting. Num cenário de grande agitação no momento em que assumiu o cargo, Rui Borges estabilizou o clube, no entanto, o passado não ajuda à construção da reputação do técnico dos leões. Um clube que estava habituado a Ruben Amorim não tem ainda a mesma confiança no mesmo treinador. É algo que se conquista com o passar do tempo é verdade.

No entanto, colocando as perspetivas numa balança, é possível perceber que Rui Borges não tem a mesma margem de erro que Ruben Amorim teve nos primeiros tempos ao serviço do Sporting. Ruben Amorim foi um treinador imensamente desejado e em quem foi depositada muita confiança por parte da estrutura. Em Rui Borges não se sente o mesmo. Depois da perda da Taça da Liga para o Benfica, a disputa das duas restantes competições também se dá com o principal rival, um cenário que piora mais as coisas caso não seja alcançado o sucesso em nenhuma das competições. Nesse cenário, a continuidade é complicada. Caso contrário, a balança de confiança e expectativas sobre uma grande reviravolta e Rui Borges passa a ser visto com outros olhos.

Bruno Lage

O técnico do Benfica encontra-se em certa parte na mesma situação que Rui Borges. Isto porque a continuidade no cargo parece depender muito do sucesso que poderá ou não ter nesta reta final de temporada. Ainda para mais com eleições no clube este ano, uma situação de instabilidade em relação ao cargo de treinador não favorece nada nem ninguém. É necessária a confiança máxima no técnico e isso só poderá ser alcançado caso Bruno Lage consiga sair do mês de maio como o grande campeão da segunda circular. Com o campeonato e a Taça de Portugal em disputa com o rival, a conquista da Taça da Liga em janeiro não chega para encher as medidas caso não se conquiste nenhum dos títulos que restam.

Nesse sentido, é essencial para Bruno Lage o sucesso nessas competições. Um cenário que se vai mostrando cada vez mais positivo dado o momento de forma dos encarnados, mas que, apesar de tudo, pode mudar repentinamente com um resultado negativo. Caso consiga alcançar o triplete na época de regresso ao Benfica, Bruno Lage torna-se indiscutivelmente uma figura de apreço e que merece toda a confiança e respeito por parte da estrutura para o que quer que o futuro tenha reservado. Caso contrário, tudo aquilo que foi feito até agora ficará muito provavelmente esquecido entre as memórias negativas que se venham a construir.