
O que está na internet, vive para sempre na internet. Vive, sim, mas pode deixar de pairar por cima de um clube como uma nuvem negra. Bastam uns reforços de inverno e uma boa série de jogos.
Áudios, quais áudios? Há um mês e um dia, a derrota contra o Casa Pia e os consequentes ficheiros sonoros deixavam a atualidade do Benfica entregue à instabilidade via WhatsApp, qual casal desavindo a discutir pelo telefone. Passados 31 dias, o ambiente é diferente, mais leve, com mais energia.
O atual Benfica vive em aceleração, em parte, graças ao mercado de inverno. É um Benfica de fevereiro, a querer mudar a estação, com sete vitórias nos últimos oito jogos — e o empate, diante do Mónaco, soube a triunfo.
Dahl trouxe alternativas para a esquerda, numa dinâmica híbrida com Carreras; Bruma, um craque consolidado, é um entusiasmo para o Benfica e, nos quartos de final da Taça, foi uma saudade para o SC Braga, a prova do que se perdeu há umas semanas; e Pavlidis é o reforço definitivo: o novo Pavlidis, um atacante renascido, pleno de confiança, que atua como homem do Renascimento, sentindo-se capaz de tudo em campo.
O grego tabela, assiste, remata. Marca. Foi dele o único golo do encontro, um 1-0 que mantém o Benfica vivo em todas as frentes. Foi o 11.º festejo nos últimos 10 embates para Vangelis e o único acerto na finalização numa equipa que, seguindo o que se viu contra o Boavista, desperdiçou muito. Na hora inicial do embate, as águias poderiam ter construído uma vantagem confortável. Não o fizeram e expuseram-se ao risco, mas o SC Braga praticamente não incomodou verdadeiramente Samuel Soares.
A equipa de Carvalhal, que defrontava o seu ex-adjunto pela sexta vez — só venceu uma, na partida desta edição da I Liga —, chegava à Luz embalada pelo bom momento de forma. Com seis vitórias e um empate nas derradeiras seis partidas e sem golos encaixados nos 365 minutos que antecederam o apito inicial, era tempo de testar a versão pós-mercado de janeiro dos minhotos, numa contenda entre conjuntos de face renovada depois da janela de transferências.
Não obstante, logo desde o arranque a amostra do Sporting de Braga foi pobre. Face à pressão intensa do Benfica, que chega a este momento da época cheio de energia e vitalidade, os visitantes sofreram imenso para chegar ao último terço. O único lance de perigo até ao intervalo foi um cabecamento de Racic, após canto da direita, uma ação que fez lembrar um dos golos da tal vitória bracarense na Luz no embate da I Liga. Na verdade, aquele remate foi a melhor ocasião dos minhotos em toda a noite.
Tirando esse susto para os locais, a primeira parte foi um festival ofensivo do Benfica. Festival de ritmo e de criação de oportunidades, festival de falta de acerto na finalização e de desperdício. Ao intervalo, a diferença de um golo entre as equipas era a melhor notícia para um Sporting de Braga que parecia atordoado, vazio desde o começo, como um homem que sai de casa para um dia de trabalho já sem vivacidade no olhar.
Logo aos 6', Kerem Aktürkoğlu acertou no poste. O turco teria mais duas boas chances, mas não deu melhor sequência, incapaz de ultrapassar Lukáš Horníček, que se vai afirmando como digno novo dono da baliza bracarense.
Aktürkoğlu atacava os espaços livres, Kökçü estava em noite inspirada e Aursnes preenchia o meio-campo parecendo jogar por três, em contraste com João Moutinho, que fez uma exibição que foi o antónimo de uma exibição à João Moutinho: imprecisa, errática, pouco fiável.
Ainda assim, o destaque maior era o tal reforço que não é reforço. Se é preciso recuar e assistir os companheiros, Pavlidis fá-lo, como aos 6', no remate ao poste de Kerem; se é preciso ligar jogo, Pavlidis fá-lo, como em cima do descanso, quando abriu em Carreras, chegando Bruma e Kökçü atrasados ao cruzamento. Se é preciso marcar, Pavlidis fá-lo. Aos 39', após mau passe de Paulo Oliveira, o ex-AZ Alkmaar recebeu, rodou e disparou um míssil para o 1-0.
O recomeço não trouxe um guião muito diferente. Carvalhal tentou mudar, colocando Fran Navarro e Robson Bambu, dois dos goleadores da tal vitória do começo de janeiro, mas o Sporting de Braga foi sempre escasso em rotas para chegar à baliza do adversário.
O melhor dos visitantes foi mesmo Horníček, que ia impedindo o 2-0. Bruma não conseguiu bater o ex-colega quando estava isolado, antes de Pavlidis lembrar o velho Pavlidis, desperdiçando uma ocasião flagrante.
Aos 66', talvez pasmado com as facilidades, Bruno Lage tentou dar alguma dificuldade à sua própria equipa. As entradas de Barreiro e Belotti para os lugares de Araújo e Bruma, passando Aursnes para lateral e juntando o italiano a Pavlidis na dianteira, tiveram o efeito de partir o Benfica, de dar espaço para o SC Braga, de abrir uma janela de esperança para o adversário.
Carlos Carvalhal sentiu a oportunidade e, na linha lateral, corria desenfreadamente, corria talvez mais do que quem estava dentro de campo. Ainda assim, apesar de algumas meias-chances, nunca o 1-1 esteve verdadeiramente perto. Lage tentou corrigir as suas próprias mudanças, lançando Amdouni e Schjelderup passados 13 minutos, com o norueguês a ter a derradeira chance da partida. O que aconteceu? Desperdício graças a uma boa intervenção de Horníček.
O jogo terminou com o Sporting de Braga a ter alguns livres laterais e cantos, insistindo em atacar sem organização ou propósito, quem sabe imitando os sprints sem direção definida do seu treinador na linha lateral. Para o Benfica, o desperdício não tapa o sorriso de fevereiro. Sem campeonato no fim de semana, o próximo adversário é o Barcelona.